4.8.08

CONTO


Um salto para bem longe


Para João Batista de Brito

Havia o bode alpinista e o menino, seu coajudante. O menino, flutuando no mundo, sonhava com papagaios coloridos e pirulitos rasga-bocas. O bode, com uma inquieta alegria nas patas, exibia um enorme par de testículos sobressalentes. De comum, ambos tinham a inocência e uma submersa tristeza nos olhos.
O palco era o Fênix, um circo de panos apodrecidos, carcaça de glória do Fênix de mastros eretos e bandeirolas coloridas. Isto podia ser visto pelos restos do antigo pássaro que ornava o frontão de entrada, onde ainda se podia distinguir o contorno da majestosa envergadura e um ou outro desbotado tom do antigo colorido sob descuidadas demãos de reparo que mais os escondiam que os realçavam. Um palimpsesto da antiga condição.
Na verdade, o Fênix era um circo muito mais por necessidade e brio do que pela tortuosa espinha do mastro, a frágil paliçada de estacas ou a pele rota dos panos, esgarçada e transparente, já nem um biombo separando aquela arte e a vida lá fora. O picadeiro era uma redoma circular de pouco raio, e o palco um retângulo sem consistência de medidas.
Perambulava por povoados cada vez menores após haver se desgarrado da órbita de cidades maiores e ser colhido pela força irresistível da pobreza do interior, das pequenas cidades, vilas e povoados como aquele onde agora estava.
O bode e o menino, adolescentes, quase crianças, não trabalhavam na armação. Os adultos cavavam os buracos, esticavam os arames, estendiam os poucos panos.
O repertório do espetáculo era mínimo. Ia diminuindo com o tempo, por morte do artista titular, desistência de um ou outro ou contenção de despesa. O que sobrava era um pequeno número de entretenimentos que, de tão repetidos, já não tinham brilho, viço ou novidade.
O elenco era reduzido. Havia o bode e o menino. Havia Hércules, de quem a idade e a vida nas barracas chuparam os recheios musculares. Sua força se reduzira, e rasgar pratos de alumínio exigia agora um pequeno talho invisível na borda dos pratos de folhas mais delgadas, para o que contava com o desleixo ganancioso dos fabricantes. Hércules fazia ainda as vezes de porteiro e ajudante de picadeiro, e sua mulher, recém chegada àquele mundo, ajudava na bilheteria. Nos espetáculos, ela tentava ajudar na coreografia dos números de canto e dança. O macaco, senil, já não trabalhava. Limitava-se a catar pulgas e cochilar ao pé do mastro, o que não deixava de ser uma atração.
Havia Bengalinha, o palhaço, já velho, cansado da itinerância, dos palcos quase sempre vazios, de ter que ceder seu espaço para cantores lamurientos e sucessos de gosto duvidoso. A chama de palhaço e o carisma humorístico quase não existiam mais, só aparecendo vez ou outra, deixando sempre nele a impressão de que aquela fora a última vez, o último espetáculo. Mas ele sempre continuava. Com chuva ou noite estrelada, repetia os números, as piadas, já nem ouvindo a reação do público. Reagia como um funcionário público.
A cantora gorducha, com sua voz engordurada e seu sinal na coxa, deliciava o público masculino. Fazia sucesso, fosse qualquer o número que cantasse, estivesse rouca ou fora do compasso. Seu sucesso dependia mais das insinuações e da generosidade da abertura da saia do que de sua atuação cantante.
Os trapezistas tinham nome, renome até, segundo diziam. Já haviam voado sob os toldos coloridos do Grande Circo de Moscou, do Ringling Circo e do Gran Circo d’Itália. Apesar do estado atual de ambos, ainda ostentavam o nome de irmãos Taviani, um resquício da antiga glória, ainda conservado pela necessidade da aura que os nomes estrangeiros dão aos artistas. Era o elenco.
Após vários meses nas outras praças, quase sem conseguir atrair nenhum espectador, o circo Fênix conseguiu chegar ali no socavão da serra, até pouco tempo nem tendo estrada carroçável, e aonde nunca tinha ido um circo.
Na tarde da estréia, após ter baixado a poeira da novidade e terminado o trabalho de armação, o bode viu sair Bengalinha com seu séqüito de moleques anunciando o espetáculo maravilhoso. E quando o palhaço anunciou, à poeira e ao cochilo daqueles moradores, o espetáculo fantástico, alguma coisa de anormal aconteceu. Nuvens acumularam-se a leste, e do sudeste correu uma brisa fresca como há tempos não se via. Pessoas lavaram os rostos nas gamelas, e as crianças inquietaram-se como se fosse tempo de ir para a escola. À noite, quase houve tumulto em frente à boquinha de meia-lua da bilheteria. O circo lotou.
Queriam ver os trapezistas bêbados, os afilhados do vácuo, os inimigos da gravidade? Ou queriam ver somente o bailado no ar, o contorcer quase gracioso da cantora gorducha, coisas que as mulheres do lugar não sabiam fazer e nem os cipós da capoeira conseguiam imitar? As crianças, com certeza, esperavam por Bengalinha e seus cansados números, para elas ainda novidade.
As pessoas, por ouvir dizer, sabiam das maravilhas que no circo se faziam e queriam ver aqueles prodígios que a propaganda retumbante do megafone de lata anunciou pelas três ruas do povoado: o nunca visto salto triplo, mortal, sem rede, com os artistas de olhos vendados.
As maravilhas que a propaganda opera nos negócios! Ninguém imaginou ser impossível voar sem venda e sem rede, num salto triplo mortal, principalmente sendo os dois os irmãos Taviani. Afinal, aqueles dois trapezistas, mesmo um tanto debilitados e maduros, eram ainda os maiores. Tanto que há vinte anos se ouvia falar neles e, ali no socavão, foram embalsamados pela fama. E agora eles estavam ali! Por este motivo, o Fênix conseguiu lotar o semicírculo das arquibancadas e a dúzia de cadeiras à frente do picadeiro.
O elenco tomou um susto com platéia tão numerosa. Nestes tempos duros, a renda dos espetáculos mal dava para alimentar o elenco com uma refeição diária, e o translado de uma praça a outra era muitas vezes objeto da benevolência alheia, despertada pelos dotes físicos da cantora ou pelo medo de que o circo tirasse de circulação o pouco dinheiro que ainda girasse no local. Uma platéia abarrotada nesse tempo era coisa rara. Bengalinha voltou a sentir os calafrios das estréias.
Um Taviani, o mor trapezista, sentado a um canto, chamou o menino:
- Você foi ao mato dar comida ao bode? Ele tem de encher a barriga senão fica nervoso e não consegue fazer nada. E veja só como está a platéia hoje!
O menino já havia feito sua tarefa. O bode, a um canto, ruminava. Sua barbicha professoral tremia: mastigava o hábito. Os dois não tinham segredos.
- Será que nos outros dias também vai dar gente? Era a pergunta do menino.
- Vai. A praça é boa. Gente simples, sem diversão. Praça pra uma semana.
A resposta parecia pedir uma confirmação. O menino e o bode sentiam alguma coisa, um pressentimento, parente da premonição. Era algo mais que a emoção da estréia, mais que a novidade do circo lotado, coisa além do nervosismo do primeiro espetáculo, algo pesado e desconhecido, medo sem fundamento, surpresa que ainda não deu o bote.
O público murmura, coletivo, quando o pano abre e o mestre de cerimônias inicia a função: “Senhoras e senhores, distinto público, o Grã Circo Fênix tem a honra de apresentar...”, e inicia-se o espetáculo. O toldo da cobertura era o céu estrelado onde a Ursa Maior passeava sem pressa. E vem o malabarista, o equilibrista, o palhaço, o bode e seu domador, a cantora, todos recebidos pelos aplausos ardorosos da platéia. Por fim, anunciam os trapezistas. O público os recebe em silêncio, como se fossem monstros sagrados ou dois condenados à execução.
Os números se sucedem até que os Taviani sobem ao trapézio e começam a fazer algumas manobras. Esquentam os músculos e domam o medo, que é parceiro e padrinho de todos os trapezistas.
Não rufam os tambores. Rangem as juntas das cadeiras do palco, estalam as tábuas da arquibancada. Iniciam-se as manobras: vôos no vácuo, mãos e pulsos, garras suadas segurando a probabilidade com a força dos náufragos. Os Taviani estão perfeitos. Felizes. As palmas lhes dão de volta a glória que pensavam estar aposentada, a lembrança dos toldos coloridos sobre a cabeça, a vontade de ousar, como só ousam os jovens artistas.
O público delira e pede mais. Os irmãos Taviani excedem as possibilidades de um trapézio tão curto, de um espaço tão pequeno, de uma impulsão limitada. A ausência de rede não permite mais que aquilo. O público não sabe o que é rede, nem conhece o medo dos artistas: pede o salto mortal. Por trás dos panos, os outros artistas gelam.
Os Taviani parados, em pé sobre as plataformas, olham-se como gladiadores irmãos. Abaixo deles, as coisas são tão pequenininhas! Só chegam os gritos, as palmas. Não vêem os olhos esbugalhados e ansiosos, os acenos desesperados de Bengalinha que lhes grita:
- Não! Sem rede, não!
Quem ouve Bengalinha? Sua voz já é fraca e sem convicção, e aqueles outros são bem mais numerosos e gritam, aplaudem como há tempos não ouvia um Taviani.
Eles sabem que numa qualquer noite, nessa noite, a corda pode se romper, e um deles irá flutuar numa bolha de medo e morrer? Sabem que todo vôo é como se fosse o último vôo? Que, se dali se desgarrarem, serão ejetados em direção às estrelas, onde não há público, e todo espaço é um trapézio de onde nunca se cai porque tudo nele é uma queda sem fim? Ou tudo é bem mais simples, é somente o sangue em corredeiras, o suor nas mãos geladas, o medo e a coragem abraçados, só? É por isso que rezam antes do salto?
Resguardados em um canto, o menino e o bode ouvem os urros da platéia e olham para o céu. Acompanham fiapinhos de nuvens deslizando no azul escuro enquanto estrelas juntam-se à tristeza no fundo de seus olhos. E ouvem os gritos do elenco tentando impedir o salto dos irmãos. O menino agarra-se ao bode compreendendo que aquilo era grande e perigoso. Os adultos haviam enlouquecido ou se embriagado. Tinha medo de ficar sozinho, perdido naquela barraca armada no meio do mundo, ele e seu amigo.
De repente, os trapezistas fazem um gesto que cala a platéia e o elenco. Todos silenciam como se presenciassem o inevitável: os irmãos se olham mais uma vez e começam a balançar no seu elemento como se aquilo uma flutuação fosse. Preparam o salto mortal.
O menino tremia e olhava as estrelas, procurando ver um dos Taviani já boiando no vácuo sem fim. O bode, lá do seu canto, irraciocinava.

Geraldo Maciel

De Inventário de Pequenas Paixões, Editora Manufatura, 2,000.

1.8.08

FOLHETIM # 1


Teses sobre o conto - (Ricardo Piglia )

1. Num de seus cadernos de notas Tchecov registrou este episódio: "Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo dessa narração futura e não escrita.
Contra o previsível e convencional (jogar-perder-suicidar-se) a intriga se estabelece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa excisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.
2. Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.
O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário.
O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.
3. Cada uma das duas histórias é contada de maneira diferente. Trabalhar com duas histórias significa trabalhar com dois sistemas diversos de causalidade. Os mesmos acontecimentos entram simultaneamente em duas lógicas narrativas antagônicas. Os elementos essenciais de um conto têm dupla função e são utilizados de maneira diferente em cada uma das duas histórias.
Os pontos de cruzamento são a base da construção.
4. No início de "La Muerte y la Brújula", um lojista resolve publicar um livro. Esse livro está ali porque é imprescindível na armação da história secreta. Como fazer com que um gângster como Red Scharlach fique a par das complexas tradições judias e seja capaz de armar a Lönrot uma cilada mística e filosófica? Borges lhe consegue esse livro para que se instrua. Ao mesmo tempo usa a história 1 para dissimular essa função: o livro parece estar ali por contiguidade com o assassinato de Yarmolinsky e responde a uma causalidade irônica. "Um desses lojistas que descobriram que qualquer homem se resigna a comprar qualquer livro publicou uma edição popular da "Historia Secreta de los Hasidim". O que é supérfluo numa história, é básico na outra. O livro do lojista é um exemplo (como o volume das "Mil e Uma Noites" em "El Sur"; como a cicatriz em "La Forma de la Espada") da matéria ambígua que faz funcionar a microscópica máquina narrativa que é um conto.
5. O conto é uma narrativa que encerra uma história secreta. Não se trata de um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é senão uma história que se conta de modo enigmático. A estratégia da narrativa está posta a serviço dessa narrativa cifrada. Como contar uma história enquanto se está contando outra? Essa pergunta sintetiza os problemas técnicos do conto.
Segunda tese: a história secreta é a chave da forma do conto e suas variantes.
6. A versão moderna do conto que vem de Tchecov, Katherine Mansfield, Sherwood Anderson, o Joyce de "Dublinenses", abandona o final surpreendente e a estrutura fechada; trabalha a tensão entre as duas histórias sem nunca resolvê-las. A história secreta conta-se de um modo cada vez mais elusivo. O conto clássico à Poe contava uma história anunciando que havia outra; o conto moderno conta duas histórias como se fossem uma só.
A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história secreta se constrói com o não dito, com o subentendido e a alusão.
7. "O Grande Rio dos Dois Corações", um dos textos fundamentais de Hemingway, cifra a tal ponto a história 2 (os efeitos da guerra em Nick Adams) que o conto parece a descrição trivial de uma excursão de pesca. Hemingway utiliza toda sua perícia na narração hermética da história secreta. Usa com tal maestria a arte da elipse que consegue com que se note a ausência da outra história.
O que Hemingway faria com o episódio de Tchecov? Narrar com detalhes precisos a partida e o ambiente onde se desenrola o jogo e técnica utilizada pelo jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto se o leitor já soubesse disso.
8. Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta e narra sigilosamente a história visível até transformá-la em algo enigmático e obscuro. Essa inversão funda o "kafkiano".
A história do suicídio no argumento de Tchecov seria narrada por Kafka em primeiro plano e com toda naturalidade. O terrível estaria centrado na partida, narrada de um modo elíptico e ameaçador.
9. Para Borges a história 1 é um gênero e a história 2 sempre a mesma. Para atenuar ou dissimular a monotonia essencial dessa história secreta, Borges recorre às variantes narrativas que os gêneros lhe oferecem. Todos os contos de Borges são construídos com esse procedimento.
A história visível, o jogo no caso de Tchecov, seria contada por Borges segundo os estereótipos (levemente parodiados) de uma tradição ou de um gênero. Uma partida num armazém, na planície entrerriana, contada por um velho soldado da cavalaria de Urquiza, amigo de Hilario Ascasubi. A narração do suicídio seria uma história construída com a duplicidade e a condensação da vida de um homem numa cena ou ato único que define seu destino.
10. A variante fundamental que Borges introduziu na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada da história 2 o tema principal.
Borges narra as manobras de alguém que constrói perversamente uma trama secreta com os materiais de uma história visível. Em "La Muerte y la Brújula", a história 2 é uma construção deliberada de Scharlach. O mesmo ocorre com Acevedo Bandeira em "El Muerto"; com Nolan em "Tema del Traidor y del Héroe"; com Emma Zunz.
Borges (como Poe, como Kafka) sabia transformar em argumento os problemas da forma de narrar.
11. O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. "A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato", dizia Rimbaud.
Essa iluminação profana se transformou na forma do conto.

31.7.08

PARÁGRAFO


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El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha

CAPÍTULO 1: Que trata de la condición y ejercicio del famoso hidalgo D. Quijote de la Mancha

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no há mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las más noches, duelos y quebrantos los sábados, lentejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto della concluían sayo de velarte, calzas de velludo para las fiestas con sus pantuflos de lo mismo, los días de entre semana se honraba con su vellori de lo más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años, era de complexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro; gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada o Quesada (que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben), aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llama Quijana; pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad.

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25.7.08

PROTOTEXTO # 1

QWERTY
O Qwerty é um ser fugidio como a lembrança, múltiplo como o desejo e esquivo como o abominável homem das neves. Só existe quando alguém, com um poder muito parecido com o de certos feiticeiros, quer que ele exista e tem meios de fazê-lo viver.
É completamente dependente do seu criador: tem cabeça quando lhe pomos cabeça, tem patas quando lhe nomeamos as patas, e é cego se nos esquecemos de mencionar-lhe os olhos. Tem a forma que queremos que tenha e, por isto mesmo, o Qwerty é um ser único. O último que criei tinha os olhos amarelos e emitia raios azuis. Tinha três patas cavalares, dois rabos diáfanos como caudas de cometa e não pisava no chão. Andava sobre um tapete laqueado em vermelho criado pelo jorro de urina que lançava pelas ventas dois metros adiante.
Um Qwerty é gerado pelo pensamento. Um Qwerty jamais outro. No entanto, pode ser duplicado. Uma mutação do Qwerty não necessita de um útero para ser gerado. Pode ser gerado pela luz, permanecer escondido em um local que não que não existe e ser modificado célula por célula, parte do parte, membro por membro enquanto é gerado.
Os ancestrais dos Qwerty são muito antigos e nasciam de uma substância grossa e negra que escorria da ponta de pedaços de bambu ou de penas de certas aves. Depois vieram as penas de aves metálicas. Alguns deles têm mais de três mil anos. Os Qwerty, como os conhecemos hoje, nasceram quando os homens descobriram que além de escravizar seus semelhantes, poderiam escravizar o tempo.
Alguns Qwertys têm vida longa, outros nem chegam a ser completados. Qwertys podem ser perturbadores. Podem nos levar ao sonho ou à loucura. E mesmo os criados por nós, nunca sabemos como realmente são. Um Qwerty pode fazer o milagre de nos mostrar o desconhecido, nos fazer ver o que nunca vimos ou nos tirar uma noite de sono. Na verdade, os Qwerty são seres incompletos. Uns mais outros menos. Quase sempre se completam na imaginação. É por isso que muitas vezes ele ali se aloja e torna-se quase impossível tirá-lo da cabeça.
Criar um Qwerty é uma tarefa difícil, mas não impossível. Basta obstinação, suor, paciência, imaginação e um pouco de fantasia, pois como dito antes, não há um modelo de Qwerty. O Qwerty é único na sua beleza, exclusivo na sua feiúra, pode ser alto ao ponto de tocar nas nuvens ou diminuto como a nossa sabedoria; é possível encontrar Qwerty munidos de asas ou implumes, pode ser bípede ou perneta, o Qwerty é singular.
Deles já se falava nos Upanishads, na epopéia de Gilgamesh, nos hieróglifos egípcios, no Novo e Antigo Testamento, no Livro dos Mórmons, nos livros apócrifos da Bíblia. Deles falaram Homero, Dante, Dante, Shakespeare, Cervantes e Euclides da Cunha. Alguns dizem que as inscrições da pedra do Ingá falam de Qwertys.
Os Qwertys são intangíveis e gostam de se alojar nos sonhos onde são muito poderosos. Tudo lhes pode ser atribuído, até a bondade. A história dos Qwerty é fascinante e terrível. E eles nisto são muito parecidos com os seres humanos.


Geraldo Maciel

1.7.07

Esporas de Prata




Entre lençóis, recatos e gemidos aconteceu o que transformou Ana em um pingo de luz, um buliçoso ponto de calor crescendo na escuridão. E em pouco tempo começaram os rituais da sua recepção, os preparativos para o seu conforto, o polimento dos rústicos sinais de sua realeza.
Enquanto a mãe pisava sobre coxins, o pai, Andolfo, expedia emissários, estafava cavalos, contratava agrimensores, confirmando os limites de suas possessões. Poliu as pratas, apalpou o ouro, acariciou os braceletes e trancelins que agora encontravam o motivo de sua existência, abandonando a esterilidade dos tesouros.
Confinou bezerros preparando carnes tenras para Ana; selecionou fartos úberes para o seu deleite; podou fruteiras e adubou sombreiros para a satisfação e o repouso da pequena rainha.
E Ana do seu berço escuro enviava sinais de suas exigências: repulsas inusitadas, gostos impensáveis, desejos incomuns.
Na noite em que Ana nasceu, o céu raiou-se de chuva de prata e estrondos incessantes. As rabecas e concertinas rangeram e resfolegaram toda a noite. Abriram-se as comportas das pipas de aguardente. Animais foram trinchados em regozijo. O povo teve acesso aos frutos da terra por um dia.
Ana cresceu entre rendas delicadas e mesuras silenciosas, mas alheia, quase, aos tributos e a vassalagem que todos prestavam à sua beleza.
E para Ana mudavam as estações a um simples desejo seu. Quando ela galopava, pradarias se desenrolavam à sua frente como tapetes; a natureza fazia chover no seu quarto de banho todos os dias, e a brisa a envolvia no sono substituindo seus lençóis.
Tudo para Ana.
E tanta beleza terminou por colocar uma indagação inevitável: Quem, entre os habitantes de tão dispersas moradias, seria o preferido de Ana? Quem ousaria julgar-se merecedor de tão alta prenda? Sua beleza não humilharia os pretendentes?
Em busca dessa taça organizaram-se fanáticas cruzadas e, como as anteriores, sempre inúteis. Em busca de sua atenção organizaram-se justas ruidosas, competições infindáveis. As selas mais ajaezadas, os peitoris mais floreados, os cavalos mais esculturais não emocionavam Ana; os cavaleiros mais audazes, as mais belas feições, a contenda mais temerária, só conseguiam a sua risonha indiferença ou o seu aplauso sem afetação.
Andolfo se divertia com a submissão de tantos cavaleiros e até se comprazia com o acréscimo de poder que isso lhe proporcionava.
Então apareceram as esporas de prata. Um rosto bronze escondendo a inquietude misteriosa de uma raça; uns cabelos tão escuros como o poço sem fundo das origens de sua beleza; um ginete andaluz tão perfeito e maciço como nunca houve igual.
A beleza de sua voz rompeu o escudo de cílios semicerrados que protegiam Ana. O magneto indecifrável dos olhos de Ana traçou o fio invisível que o norteou no labirinto de escuros corredores. Um bálsamo sagrado besuntou as rangentes dobradiças.
Entre lençóis, êxtase e suspiros, aconteceu o que transformou Ana na matriz de uma nova linhagem.
Ela então comunicou ao pai, com a naturalidade com que as rainhas comunicam suas vontades, que podia suspender todos os torneios, deixar repousarem todos os cavalos e permitir que as flores bravas voltassem a renascer nas arenas e nos terreiros:
- Vou ter um filho.
Andolfo ouviu a notícia com a mesma indiferença exterior com que escutava relatórios sobre abundância de colheitas ou pragas invisíveis nos rebanhos:
- Quem é o pai?
Ana anunciou o que sabia ser o início de um sumário e inevitável processo de condenação. E como uma fada que não pode modificar uma maldição, mas atenuá-la com o seu poder, sentenciou:
- Não quero minha filha órfã.
Andolfo não achou necessário dizer sim, pois um desejo de Ana se consumava sem que fosse necessária a sua anuência.
Era madrugada quando chegaram os caçadores e seus cães de narinas de bússola:
- Encontrem o de cabelos negros e esporas de prata nem que seus cavalos gastem as patas até o tornozelo e tragam-no aqui sem um único arranhão!
Andolfo não dormiu até olhar de frente aquele que vencera todos os torneios sem em nenhum deles tomar parte; o que numa solitária cruzada derrotara todos os infiéis que rondavam aquele sagrado templo e diante da platéia de cães e caçadores anunciou a sentença:
- Enquanto Ana e seu filho viverem você viverá. Porém jamais montará seu cavalo; jamais tocará um violão ou cantará; jamais verá Ana e seu filho!
As pradarias continuaram se desenrolando frente ao galope de Ana.
Na noite em que a filha de Ana nasceu, repetiu-se todo o ritual de alegria e toda a ruidosa comemoração que Ana havia tido.
Andolfo convocou novamente os caçadores, suas armas e seus cães:
- Os ciganos que forem encontrados dentro de minhas terras, nelas ficarão para sempre; os que estiverem fora, nela jamais pisarão.
E despachou-os sob os relâmpagos dos fogos de artifício, para dentro da noite escura da vingança.
E em tal noite são pálidos os reflexos dos punhais silenciosos; invisível o rubro borbulhante da sangria; os gritos esmorecem antes de serem escutados e os assassinos betumam os ouvidos para fugirem ao canto tentador da piedade.
Os cães ainda lambiam sangue , no focinho e os cavalos espumantes de suor ainda não haviam se aquietado quando Andolfo completou o pacto: sangue e silêncio contra ouro e prata.
Os assassinos voltaram para sua noite enquanto Andolfo, segurando um lampião, vagueava pelos corredores, tendo a certeza de que nada poderia mudar o curso de suas certezas, ninguém o surpreenderia, agora, com um inusitado ato ou disfarçada malícia. Tão logo fosse tempo, reiniciaria os torneios, anunciaria as competições, onde os melhores, os mais audazes, novos cruzados, se digladiariam até o máximo de bravura, até onde a coragem quase toca a insanidade ou o ridículo, em busca da filha de Ana. O que ele só saberia muito tempo depois é que um dos assassinos rompera o tímpano de cera e que agora carregava no arção da sela, navegando o sereno numa sua cesta de vime, uma criança pequenina, de cabelos muito negros e pele cor de bronze, tendo sob as roupas, como um talismã, um lindo par de esporas de prata.